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domingo, 5/12/2021

Trabalhador quer qualificação, e não armas – Por Ricardo Patah

Agora, já está tudo dominado. Faltava o Congresso. Com a eleição de dois representantes do Centrão para presidir Câmara e o Senado, o esquema está fechado. Ao ser vaiado por um grupo de parlamentares do PSOL, na abertura do ano legislativo, Bolsonaro foi rápido no gatilho: “Nos encontramos em 2022”. Esse é o mantra de seu (des)governo de agora em diante.

E por falar em gatilho, Bolsonaro flexibilizou ainda mais a liberação de armas. Cada cidadão pode agora ter até 6 unidades. Fica a impressão de que se está criando um exército de civis. Pra quê? O brasileiro precisa mesmo é de qualificação profissional, vacina já e auxílio emergencial. Essas são prioridades absolutas. Só a imunização começou, e faltam vacinas, por desorganização geral do governo (ou falta de interesse).

Nas 35 prioridades enviadas ao Congresso, Bolsonaro não citou uma linha sequer sobre qualificação profissional. Ora, temos 14 milhões de desempregados (que podem ser muito mais, pois o IBGE só conta quem vai procurar emprego), pelo menos 68 milhões de informais e outros 5 milhões de desalentados (pessoas que perderam a esperança de arrumar qualquer emprego e nem saem mais de casa) e o governo federal não se preocupa com essa tragédia.

Mas tragédia maior acontece com os jovens, especialmente dos 20 aos 24 anos — 35.2% nem estudam e nem trabalham. Dos 25 a 29 anos, o desemprego atinge 33%. A verdade é que a crise econômica (PIB caiu 9,7% no segundo trimestre) e a sanitária expulsaram os jovens do mercado de trabalho. E também da educação, uma vez que 608 mil estudantes do ensino privado largaram a faculdade. Isso sem contar quem abandona o ensino médio e fundamental.

A nossa UGT (União Geral dos Trabalhadores) fez, no final de outubro de 2020, o primeiro mutirão virtual do Brasil (por causa da pandemia e do isolamento social). Enviaram currículos mais de 300 mil candidatos, sendo 198 mil jovens de 18 a 30 anos. E vejam o absurdo: com todo esse exército de desempregados, pouco mais de 60 pessoas conseguiram uma das 12.500 vagas colocadas à disposição por 196 empresas, especialmente dos setores de comércio e serviços.

Numa videoconferência feita com os RHs das empresas para a avaliação dos péssimos resultados (pelo menos até agora), a constatação foi que a falta qualificação profissional é um grande problema. Mas não só isso. Muitos candidatos não preenchem as condições básicas de ensino, no caso o ensino médio completo, que é a exigência da maioria das vagas postas à disposição. Exemplo: os grandes açougues, especialmente de supermercados, exigem ensino médio para qualquer vaga de açougueiro.

A nossa central está aberta ao diálogo com o governo federal e seus ministérios, para implantar rapidamente cursos de qualificação profissional. Antes da pandemia, fizemos algumas reuniões com a Secretaria do Trabalho (Ministério da Economia), mas o isolamento social fez com que o processo fosse interrompido. Nossos sindicatos estão à disposição para prestar esses cursos de qualificação, pois conhecem a necessidade do mercado. Temos que lembrar que a revolução 4.0 não perdoa. Tem mais chance de arrumar emprego, pelo menos é o que acontece agora, quem se qualifica para as fintechs e startups, empresas tecnológicas.

O auxílio emergencial deveria ter continuado como foi implantado em setembro, com R$ 600 para os sem-renda (68 milhões). Essa interrupção diabólica, implantada por negacionistas e obscurantistas do governo, está aumentando o número de famintos. O novo valor agora — uma novela que não resolve — pode ser de R$ 250,00. É bom lembrar que o valor médio da cesta básica no Rio de Janeiro foi de R$ 644 (em janeiro de 2021) e em São Paulo atinge R$ 535. Dá para matar a fome?

E ainda temos o desastre da vacinação. Fomos praticamente um dos últimos países do mundo a começar a imunização, e estão faltando vacinas. Em compensação, sobra cloroquina. Esse descaso com a saúde do brasileiro começou com a pandemia (“uma gripezinha”) e continua agora. Quanto mais demora, mais mortes, mais desemprego, mais demora para retomar a economia. Uma tragédia sem fim.

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