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terça-feira, 28/06/2022

OS POBRES – por João Franzin

Fui pobre, mas não muito pobre. Passei perrengues quando cheguei em SP, 1976, pois queria ser independente. Dividi prato de comida, mas fome nunca passei.

Quem está passando fome é o povo brasileiro: mais de 33 milhões.

Hoje de manhã, cobri a entrega de agasalhos num bairro carente de Guarulhos. Conversei, ouvi, entrevistei.

Dona Maria tem oito filhos. Dois trazidos pelo atual marido, três que ela teve com outro companheiro e outros três que era da irmã desmiolada, crianças que pegou para, no dizer dela, “não deixar morar na rua”.

Portanto, ela, o marido e mais oito: 10 pessoas. Marido faz bico de pedreiro. Ela cuida dos filhos. Família gasta um butijão de gás por mês – por lá custa R$ 130,00. Ela ganha R$ 400,00 de Auxílio Brasil.

Perguntei: – Tem gente aqui no bairro passando fome?

Ela: – Muita. Ontem mesmo uma vizinha foi em casa pedir um pouco de arroz.

Eu: – Pra senhora tem faltado?

Ela: – Com a graça de Deus, não.

Dona Maria frequenta a Assembleia de Deus, mas trabalha numa igreja católica.
Na Assembleia, entregam gêneros uma vez por semana. Na Católica, uma vez por mês. Ela, inclusive, recebe.

Quis saber se aumentou a procura. Resposta: – Demais.

Na igreja onde trabalha, tanta foi a procura que, em vez de uma cesta básica, a pessoa só levou um saco de arroz de dois quilos.

Todas as mulheres com quem conversei, disseram ter muita fé em Deus. Sem emprego, sem renda, sem comida, como criticar quem se apegue à fé e a uma ideia abstrata de Deus? Não tem como!

Perguntei se a situação no bairro havia piorado nos últimos anos. E de quem era a culpa.

Ela: – Daquele lá que tá no governo. Nele não voto mais. Vou votar no Lula.

As mulheres são a maioria da população brasileira e principalmente no eleitorado. São essas aí – pobres, gastas, donas marias, arrimos de família – que vão decidir a eleição.
Essa gente é muita e possui uma força emocionante. É preciso que o segmento político (e sindical, no meu caso) ouça essas pessoas, conheça suas vidas, entenda suas razões. É preciso e urgente.

João Franzin, jornalista e assessor sindical
www.facebook.com/joao.franzin.1

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