CLASSE DOMINADA – por João Franzin

Desde maio de 1985, trabalho para o movimento sindical, suas entidades, ou seja, as organizações da classe dominada.

Sou alguém que ascendeu à classe média, conseguiu formação superior, trabalha numa atividade que exige pouco esforço físico e utiliza as técnicas do jornalismo pra fazer comunicação e, na ponta final, ajudar a organizar dirigentes e trabalhadores.

A classe dominante forma quadros e dirigentes de modo permanente. Uma grande indústria, banco, enfim, uma organização capitalista investe décadas pra formar gestores.
A boa formação desses eleitos, apoiados na própria estrutura empresarial, torna a organização capitalista sólida e resistente.

No campo sindical não é assim. A formação é deficiente e há quem mesmo trabalhe contra essa ideia. Na organização sindical, existem a cúpula e a categoria. Diferentemente, o órgão capitalista tem a cúpula e a base, mas é composto por uma série de instâncias intermediárias: diretores, gerentes, chefes de seção, consultores e assim por diante.

Ou seja, a organização capitalista, além de contar com quadros mais preparados, funciona de forma orgânica.

No mundo capitalista, o conhecimento nunca se perde e o profissional qualificado raramente fica pelo caminho.

No mundo sindical, isso não é automático. Já vi dezenas (ou mais) de talentos serem deixados no caminho. Já vi muita gente boa se perder. Já vi gente qualificada se desorganizar. Já vi patrão detonar nossa organização. Já paguei prato de comida pra dirigente que antes falava grosso.

Ainda assim, o sindicalismo brasileiro é o melhor do mundo. E por quê? Por causa da estrutura concebida por Getúlio Vargas. O sindicalismo varguista não estava nem fora, nem dentro do Estado, numa relação ora de proteção, ora de pressão. Mais de proteção.

Como é essa estrutura? É simples como uma pirâmide. Na base, os Sindicatos, nas instâncias intermediárias as Federações e na cúpula as Confederações. Todo presidente de Confederação (ou seja, cúpula) um dia foi motorista, metalúrgico, pedreiro e assim por diante. Ou seja, é uma forma de organização que tem lógica e naturalidade. Falta, porém, um processo mais contínuo de qualificação.

Não é a formação acadêmica, clássica, porém. A formação do dirigente é igual à têmpera do soldado: ela é forjada no combate, ou seja, nas lutas, enfrentamentos, mobilizações, greves, campanhas e nas negociações. A outra formação é um complemento.

Sou um observador privilegiado do movimento sindical, pois trabalho para o sindicalismo sem estar dentro de uma entidade, e sim a partir da Agência Sindical, que, na prática, é um ponto de conforto. Essa distância permite ter uma visão aérea do processo e sua dinâmica. Quando posso, a partir dessa visão, intervenho e atuo. Quando não, recolho as armas.

Outro dia eu lia um conto em que Sherlock Holmes advertia Watson (que é médico) acerca de seus relatos. Ele dizia: – O problema, meu caro Watson, é que você dá muita importância aos acontecimentos e relega a lógica.

E quem relega a lógica se fode.

João Franzin, jornalista e assessor sindical
www.facebook.com/joao.franzin.1

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