• 5/12/2018 - A campanha presidencial

• 5/12/2018 - quarta-feira


Antônio Augusto de Queiroz é jornalista,
analista político e diretor do Diap.
E-mail:
toninho@diap.org.br

As eleições gerais de 2018, realizadas num clima de conflagração e de forte rejeição ao sistema político e suas práticas, foram atípicas e se deram num ambiente de renovação, com elevada intolerância aos agentes públicos em geral. Polarizada entre Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT, a eleição presidencial foi decidida em 2º turno com o sufrágio do candidato do PSL.

Três fatos políticos tiveram influência no resultado da eleição presidencial:

1) o ativismo do Judiciário e do Ministério Público, especialmente na tentativa de criminalização do PT;

2) a prisão de Lula, que seria o candidato do PT e teve que ser substituído por Fernando Haddad; e

3) a facada no candidato Bolsonaro, que ficou impedido de participar de quase toda a campanha.

Esses episódios ou fatos políticos facilitaram a estratégia de campanha de Bolsonaro, que consistia mais em apontar supostos erros dos governos anteriores, especialmente do PT, do que apresentar alternativas. De um lado, o ativismo judicial e a prisão de Lula favoreciam seu discurso, e, de outro, ficar fisicamente fora da campanha, em certa medida, o blindando das inconsistências de suas “propostas”, além de não o impedir — mesmo estando num quarto de hospital — de falar ao vivo com seus potenciais eleitores via redes sociais.

O candidato vencedor centrou sua campanha na desqualificação do sistema político e de suas instituições, das esquerdas e das políticas públicas em favor das minorias, como as quotas, os benefícios aos quilombolas e aos presidiários (auxilio-reclusão), responsabilizando-os por tudo de mau que acontecia ao País. Foi o candidato anti-sistema.

Seu método de campanha consistiu em identificar problemas, que incomodam a todos, apontar os governos anteriores, especialmente o PT, como supostos culpados por esses problemas, e prometer punição ao supostos culpados, mas sem apresentar uma solução para tais problemas.

A tática do ataque, em substituição à apresentação de programa, foi eficaz porque atingiu, em cheio, os três principais grupos de eleitores:

1) os bolsonaristas, 2) os desalentados e os 3) petistas.

Mobilizava os dois primeiros em seu favor ou contra os supostos responsáveis pela suposta deterioração do País, além de atrair o 3º grupo para a briga, deixando a disputa no campo ou na arena em que lhe era mais favorável ou conveniente.

A estratégia encontrou ambiente fértil. Uma enorme crise fiscal do Estado, excesso de demandas da sociedade, aumento do desemprego, da criminalidade e da violência, uma população desalentada e com medo, e, acima de tudo, a facilidade para disseminar discurso que aponta os supostos responsáveis por tudo isso: o sistema político e os partidos que tinham sido governo nos últimos 20 anos.

O discurso “contra tudo que está ai”, sem dizer o que pretendia colocar no lugar, funcionou para o candidato vencedor em duas dimensões. A 1ª porque havia coincidência de diagnóstico com a maioria da população – insatisfeita com a insuficiência e má qualidade dos serviços públicos, com a criminalidade, a corrupção, o desemprego e a violência – e a 2ª porque “saciava” o desejo de vingança de parcela significativa da população em relação aos supostos culpados por esse estado de coisas.

Eleitoralmente funcionou, mas há serias dúvidas se vai funcionar no governo. A população, desde as jornadas de junho de 2013, não está mais disposta a aceitar como éticas, legítimas ou sustentáveis políticas governamentais que punam ou ignorem suas demandas por melhores condições de vida. Se não tiver suas expectativas atendidas, a população vai se sentir traída e vai reagir, acusando o governo de estelionato eleitoral, com possíveis manifestações de protestos.

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