10/8/2018 - A graça da juventude

• 10/8/2018 - sexta-feira


Clemente Ganz Lúcio é sociólogo
e diretor-técnico do Dieese.
E-mail:
clemente@dieese.org.br.

“Não tenho medo da vida,
tenho medo de não viver.”
Gilmar Ramos, Campos Alegre, BA
Cordel da Juventude do Nordeste

Escrevo com o encanto e a alegria que a esperança traz quando nos deparamos com novas possibilidades de futuro.
Há profundas alterações nos paradigmas estruturantes do sistema produtivo. Eclodem, ainda que não plenamente visíveis, novas formas de produção de energia, de comunicação e de transporte, que promovem transformações disruptivas. O sistema produtivo, imerso em mudanças tecnológicas, está criando um outro mundo. A máquina substitui o trabalho humano. A desregulação do trabalho permite demitir e precarizar, causa insegurança, fragiliza e suprime a proteção social. As relações sociais e a cultura também se modificam.

Um movimento capaz de colocar paradigmas alternativos aos dominantes está desafiado a um enorme esforço inovador. Será necessário pautar a sociedade para debates deliberativos sobre múltiplas dimensões da vida e da forma de produzi-la. O desafio será - como no passado já foi - mobilizar a sociedade para a construção de outro mundo possível e melhor, orientado por princípios de igualdade, liberdade e solidariedade, por uma utopia que encoraje corações a lutar, porque só haverá o inédito futuro se houver luta.

Esse movimento emergirá se a juventude ocupar espaços, assumir seu protagonismo e, com ousadia, correr riscos. A audácia para questionar as verdades que se colocam como definitivas também exige irreverência. Os jovens, na plenitude da vida que irrompe, têm um olhar inovador sobre a realidade.

Encontrei, nesta semana, um grupo de 300 moças e moços, reunidos pela Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, que debatiam ações, lutas e organização dos jovens trabalhadores rurais.

O Projeto Jovem Saber – veja no site www.contag.org.br – mobiliza jovens em todas as unidades da Federação e dedica-se, entre outras ações, à formação da juventude, à sucessão rural, ao acesso à tecnologia e à inovação para incrementar uma produção alimentar saudável e sustentável. Essa juventude quer ter acesso à educação e assegurar sua qualidade. Esses jovens querem produzir em um sistema produtivo solidário e cooperado, que se realize no âmbito de um projeto de distribuição justo. Querem políticas públicas de um Estado social, política de investimento produtivo, crescimento econômico e desenvolvimento social. Querem justiça, querem amar e querem ser felizes, como muitos. Isso vale uma vida, como disse Gilmar.

Juntos, graciosos, revelam nos encontros sua mística para a luta. Sim, porque sabem que não haverá um mundo justo e solidário sem muita luta contra o poder dominante em todos os níveis e espaços. Esses jovens sabem que a caminhada é longa e que a tarefa será cada vez mais deles.

Os jovens não são o futuro; o futuro é que será dos jovens. E eles sabem que o futuro lhes pertencerá efetivamente se forem capazes de se fazer presentes - política, social e economicamente. Será sua capacidade de intervenção criativa, irreverente, provocativa e ousada que nos obrigará a mudar.

A juventude traz a graça da alegria e um novo estímulo para nos unirmos na luta. Que o movimento sindical se espelhe no exemplo dos jovens do meio rural e em tantos outros dos movimentos sociais e sindical.

Ainda mais animador foi ver as mulheres ocuparem todos os mandatos da coordenação do Movimento Jovem Saber, exercendo um protagonismo criativo e promovendo mudanças que impactarão todo o movimento sindical.

Abram alas para a moçada! Neste presente trágico, eles terão a tarefa de construir novas possibilidades de um futuro que será, cada vez mais, deles!

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