8/6/2018 - Desalentados e a greve dos caminhoneiros - Ricardo Patah

• 8/6/2018 - sexta-feira


Ricardo Patah é presidente nacional da União Geral
dos Trabalhadores (UGT). E-mail: rpatah@uol.com.br

Em meio às oceânicas crises que infernizam diariamente a vida nacional, surgiram personagens novos no nosso desastrado cotidiano, sem que o País se desse conta disso: são cerca de 5 milhões de desalentados. O nome é assustador e angustiante. Até recentemente, integravam o universo de 13 milhões de pessoas desempregadas. Agora, desistiram de tudo.

E o que mais assusta é que a greve dos caminhoneiros do perigosamente perdido governo Temer aumente ainda mais esse exército de trabalhadores sem rumo. A economia regrediu com a paralisação, e a perspectiva de se aumentar os postos de trabalho ficou ainda mais distante. Nosso País parece ter sido sequestrado por um grupo (governo federal, parte do Congresso, empresários, banqueiros etc.) e não consegue caminhar sem tumultos perigosos, como esse dos motoristas.

A bem da verdade, as reivindicações do setor eram corretas. O governo Temer, que já tinha o problema na mão desde outubro passado, não deu a mínima importância. Deixou as coisas rolarem até a explosão do conflito que pôs em risco nossa frágil democracia, como se nossos graves problemas pudessem ser resolvidos com um golpe. Já tivemos essa experiência, e seus resultados nefastos são conhecidos de todos.

Para resolver os problemas dos caminhoneiros, o governo cortou verbas da saúde e da educação, tirando benefícios sociais de trabalhadores pobres e aposentados. Mas não mexeu, por exemplo, com as emedas parlamentares. Só nos primeiros quatro meses deste ano, já foram liberados quase R$ 2 bilhões para deputados e senadores. Se o roteiro for seguido à risca, até o fim deste ano cada um vai receber R$ 14,8 milhões. Serão R$ 8,8 bilhões no total. Quase o custo da greve dos caminhoneiros.

Os desalentados foram manchete da Folha no dia 18 de maio. O IBGE informa que o número de desalentados (ou desesperançados) é o maior já registrado. Cresceu de forma absurda desde 2014, transformando-se no mais novo drama dos trabalhadores desempregados.

Já somos o País da informalidade, do "bico", do trabalho intermitente e por conta própria, da pejotizacão. Temos cerca de 34,3 milhões de pessoas nessas modalidades, contingente superior aos 33,3 milhões de ocupados em vagas formais (dados do IBGE).

Durante a reforma trabalhista, o governo propagandeou que seriam criados milhões de empregos, o que não aconteceu, como vimos acima. A UGT realizou, no último 1° de maio, seminário sobre a Quarta Revolução Industrial. Participaram especialistas da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual Paulista. A principal discussão girou em torno das mudanças em curso nas relações trabalhistas, motivadas especialmente pela flexibilização e pela era digital.

A automação vai mexer com 16 milhões de brasileiros até 2030, segundo especialistas do setor. Essas mudanças já vêm ocorrendo em muitos países há mais de 20 anos, mas o Brasil ainda não acordou para esse problema. Vivemos uma constante crise política, econômica, social e moral e não conseguimos reagir. Nosso País parece um gigante abatido.

Klaus Schwab, autor do livro "A Quarta Revolução Industrial", tem uma frase assustadora sobre essa imobilidade: "Neste novo mundo, não é o peixe grande que come o pequeno, mas é o peixe rápido que devora o lento".

A grande chance de mudarmos tudo vem com as eleições de outubro. O voto de cada um de nós deve ajudar a fazer uma grande revolução, fortalecendo a nossa democracia. Ou fazemos isso ou corremos o risco de olharmos para os desalentados e dizer: nós seremos vocês amanhã!

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