09/02/2015 - O silêncio, fatal, de Dilma

O povo não gosta e desconfia de governantes silenciosos. O silêncio amplia a distância entre poder e sociedade. O silêncio piora a imagem do governante. Na percepção popular, governante que não fala, não explica e não se comunica não gosta do povo.

Quando nos lembramos de Getúlio, por exemplo, com a nossa lembrança vem a saudação “trabalhadores do Brasil”, fortalecendo a mística popular e trabalhista. Procure se lembrar de alguma saudação de Fernando Henrique. Não existe. O silêncio de FHC, somado à sua empáfia, ajudou a fazer dele um Presidente impopular.

Perón falava com as massas, e aí está tantas décadas depois o peronismo vivo e ativo. Fidel falava horas, e sua mística resiste. Mandela falava e o povo dançava, embalando seu líder. Lula era criticado por falar demais, em todos os lugares – e Lula é o que é. A luta de Brizola para garantir a posse de Jango, apoiada numa rede de rádios – “cadeia da legalidade” – é um épico.

É bom lembrar que o atual silêncio de Dilma não é fato isolado. Seu governo inteiro é um fracasso retumbante de comunicação. Na área onde atuo, o sindicalismo, sempre houve crítica de que a Presidente não falava com as Centrais. Mesmo quando podia faturar, no caso, por exemplo, do lançamento do Pronatec, Dilma, em vez de promover um ato político, com o sindicalismo, se contentou com um gesto formal e burocrático.

O silêncio de Dilma já seria grave por si só. Mas fica dramático frente à postura da grande mídia, derrotada nas últimas eleições presidenciais. A torrente de denúncias, sempre colocando o PT e o governo no centro, é o terceiro turno em andamento. Já assistimos a esse filme em 1954 e 1964, com o tal mar de lama e o apoio a golpes de Estado. Os barões da mídia se comportam como classe. Portanto, a eles pouco importa a ordem democrática, desde que seus interesses econômicos sejam preservados.

Eu pergunto: com tantos conselheiros, assessores e especialmente marqueteiros ao redor, não ocorre alertar a Presidente sobre a fatalidade de seu silêncio? Ou a corja só pensa em dinheiro e, no caso da marquetagem-prostituta, só no dinheiro a rodo das campanhas financiadas pelo submundo?

No “Sermão da Sexagésima” (de 1655), Padre Antonio Vieira martela a frase “o semeador saiu a semear”, ensinando que não basta pregar e, sim, sair, andar, se deslocar, carregando a mensagem - ainda que se tenha de ir pregar aos peixes.

Dilma não prega; Dilma não sai; Dilma não se desloca. Assim, fica difícil, companheira.

Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home