23/1/2016 - Folha do pão - João Franzin

23/1/2017 - segunda-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Antigamente, havia um papel próprio onde se embrulhava pão. O dono da padaria, geralmente português, também usava aquele papel pra fazer as contas e fechar o borderô do dia. Fazia um risco, de alto a baixo, dividindo a folha ao meio. Num lado, anotava as despesas; no outro, listava as entradas. Embaixo, o saldo do dia.

Na padaria, assim como na vida, a lista da entrada tem de ser mais comprida que a lista de despesas. Se não, o saldo negativo vai nos consumir até decretar a falência completa e definitiva.

Uso com frequência a imagem da folha do pão da padaria. Dia desses, conversava com dirigente sindical incomodado, de certa forma, com a reorganização do Fórum Sindical das Confederações, entendendo que isso poderia criar um campo de força divisionista no movimento, de alguns anos para cá sob hegemonia das Centrais.

Fiz ver a ele que não, sugerindo que riscasse ao meio o papel e listasse, lado a lado, “o que nos une” e “o que nos divide”. Você verá, argumentei, que a lista daquilo que nos une será muito mais longa do que a lista daquilo que nos divide. E aí citei: defesa dos direitos, luta pelo emprego, reivindicação pela redução da jornada, enfrentamento dos ataques a aposentados, combate à terceirização selvagem, formalização dos empregos, e muito mais.

Aproveito pra contar uma história. Em 2003, a gana petista pela hegemonia desenhou a reforma sindical e trabalhista que punha fora do jogo as Confederações de trabalhadores, estimulava a pluralidade e no topo da pirâmide empoderava, digamos, as Centrais, cuidando, no entanto, de manter intactas as confederações patronais. Osvaldo Bargas regia a opereta, sob a rubrica do FNT, que gerou muito atrito, mas produziu pouco calor.

Fiz parte, com um grupo de assessores e sindicalistas, do núcleo original que pensou o FST (Fórum das Confederações), a partir do qual se armou a resistência ao desmanche e ao movimento hegemonista de almanaque dos que se iludiam com a vitória eleitoral, achando que passavam a ser donos do poder.

Com o tempo, e até porque Lula viu que a operação trazia mais confusão que soluções, a economia cresceu, as Centrais foram reconhecidas, a fila andou e o Fórum, de certo modo, recolheu as armas. Novas Confederações foram fundadas e, na prática, evoluiu a relação entre o campo confederativo e as Centrais.

Agora, com a nova hegemonia política na mão de golpistas, conservadores - entre os quais, conhecidos velhacos da política - voltam os ataques do governo aos direitos de trabalhadores, à aposentadoria de milhões e a garantias trabalhistas importantes para a grande massa trabalhadora. Nessa conjuntura, é legítimo o movimento das Confederações de reforçar o Fórum Sindical e definir uma agenda de ações, na base, no Congresso nacional e também junto aos níveis de governo.

Diferenças há, pois se não todos estariam na mesma Central, na mesma igreja, no mesmo partido. Mas, substancialmente, o centro da luta é o mesmo. A nossa folha do pão, portanto, não precisa de linha divisória, pois o que nos une - e move - é o interesse de classe, é a busca por uma ordem econômica centrada na produção, no trabalho e na justa distribuição de renda.

Sugestão - Para as Centrais ou o Fórum Sindical, ou ambos, juntos, sugiro incluir na pauta ações urgentes em prol dos desempregados, muitos dos quais já na vala comum da exclusão, morando em barracas ou vivendo nas ruas com famílias inteiras.

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