8/11/2016 - Lula e Anteu

8/11/2016 - terça-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Entre tantas coisas que aprendi com Sérgio Gomes, o Sergião da Oboré, uma das mais espirituosas é sua interpretação para a lenda de Anteu, o gigante grego imbatível nas lutas. Sergião adaptou a parábola à história de um antigo sindicalista paulista.

Mais ou menos assim. Toda vez que tinha algo importante na agenda (encontros políticos, empresários etc.), o dirigente ia à sua fábrica e informava os trabalhadores. No evento, ele contava a seu interlocutor que havia ido à fábrica informar a base. E, no retorno, passava na empresa para prestar contas aos companheiros.

Esse modo de agir criava uma corrente inquebrantável entre o sindicalista e seus liderados, possibilitando que crescesse, ao mesmo tempo, para cima e para baixo. Isso fortalecia sua liderança e o credenciava para ações cada vez mais articuladas e, digamos, poderosas.

O tempo foi se passando e o dirigente acabou por se cansar daquela rotina. Assim, em vez de repetir a operação, passou a preferir se comunicar à distância, utilizando o farto espaço de que dispunha na mídia patronal.

Na medida em que se distanciava da base, o dirigente ia perdendo força. Entrou para a política, mas foi breve. Ocupou cargos públicos, no entanto, sem destaque ou algum trabalho de maior mérito e reconhecimento.

E onde entra o grego imbatível? Pois bem. O astuto Hércules passou a observar as lutas de Anteu e percebeu que o gigante nunca tirava os pés do chão - sua força crescia na medida em que mantinha contato com a terra. Então, Hércules, o mais forte entre os fortes, atacou Anteu, o levantou do solo e o gigante murchou até desfalecer. Sem terra, sem força; sem chão, sem vitalidade.

O erro do sindicalista, alertava Sergião, era haver desprezado o pé no chão, o contato com a base, a ligação com sua origem, a conexão com o mundo concreto e real. Moral da história: quem quiser sobreviver não deve tirar os pés do chão.

Dos políticos brasileiros da era moderna, poucos cuidaram de manter seus pés no chão: Getúlio, Jango, Brizola, Arraes e Lula. Já encontrei Lula em diferentes ocasiões e ele me pareceu sempre o mesmo, estivesse reunido com banqueiros, fosse um encontro com catadores de papel. Há nele uma força autêntica, que, a exemplo do grego Anteu, deve vir direto do chão.

Nesta semana, o partido criado por Lula (e gravemente derrotado nas últimas eleições) pode definir seu futuro. O jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria segunda (7) mostrando o esforço do ex-líder metalúrgico em manter a unidade do partido e reconstruir o PT a partir da base. A base de um partido é o seu chão. Sem chão, sem partido. Sem base, só balcão de negócios e xepa de feira da política-prostituta.

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