19/4/2016 - ‘O que aprendi domingo’

19/4/2016 - terça-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Domingo, votação do impeachment pela Câmara dos Deputados, foi o dia em que por mais tempo assisti televisão em minha vida. Com paciência cívica - e jornalística - acompanhei voto a voto até a vitória esmagadora dos que querem apear a presidente, sem que Dilma tenha praticado crime. Penso que aprendi algumas coisas:

Autonomia - Ao contrário da lenda coxinha, o Legislativo é poder independente do Executivo. O alegado bolivarianismo petista é baboseira.

Centrão - A Câmara tem composição eclética, mas sua maioria, essencialmente, dá seguimento ao “centrão” que se formou na Assembleia Nacional Constituinte, no final dos anos 80.

Idiotice - A profusão de besteiras dos discursos me fez lembrar Nelson Rodrigues: “O principal fato do século é a ascensão fulminante do idiota”.

Universo - A composição física, ética e ideológica da Câmara nos faz pensar que a política é uma espécie de universo paralelo: sentimos sua presença, mas não conseguimos penetrar em seus domínios.

Ilhas - Nossa dimensão continental propicia a formação de ilhas, no território Legislativo. Assim, em vez de legisladores e fiscais do interesse público, deputados representam cidade ou região. A representação corporativa clássica (agronegócio, indústria, comércio, transportes etc.) é difusa - nos de esquerda também não se viu representação sindical, de servidores etc.

Deus - Palavra mais falada que o substantivo Constituição - e o que estava em questão era se Dilma rasgou ou não a Constituição. Ou seja, naquele ambiente, pronuncia-se muito, em vão, o nome de Deus.

Cabeças - As mais de 500 falas mostraram chocante pobreza vernacular. A Casa pode ter uns 20 cabeças. O mais é poeirão, baixo clero ou nem isso.

Alvará - Eduardo Cunha tem absoluto controle de seus pares. A condução do processo de impeachment e seu fecho representam, simbolicamente, seu próprio alvará de soltura.

Lazzaroni - O plantel atual é uma seleção às avessas. A massa desconjuntada não comporta qualquer esquema tático, a não ser os arranjos à meia-luz, comandados por Cunha e asseclas. Chico Buarque canta “o malandro é o barão da ralé”.

PT - Fica evidente que o petismo se descuidou, irresponsavelmente, da relação com o Congresso. Lula se impôs pelo peso do mito, mas não construiu um legado de relações com o Legislativo. Dilma é a fratura exposta do acidente. O ódio ao PT e o preconceito de classe raso foram inúmeras vezes sacados na longa sessão.

Indecisos - A questão dos indecisos fica em aberto. O novo “centrão” estava indeciso sobre a votação ou se fez de sonso para cobrar mais?

Repetição - As seguidas referências a Deus, família e outras lateralidades mostram que os indecisos do “centrão” foram orientados no discurso, para justificar o voto. Nos votos finais (esgotados Deus, família, cidade natal, pai, mãe etc.) vários falaram em nome dos “Dez milhões de desempregados”. Alguém mandou.

Mídia - A transmissão das sessões pela TV Câmara, GloboNews e outras mídias faz o parlamentar forçar na performance - fita verde-amarela, histrionismo, bandeiras do Estado etc. É a espetacularização do mandato.

Reação - A luta pela redemocratização punha os melhores no Parlamento. A atual banalização da política destaca os mais desqualificados. O golpe de 1964 foi conduzido por Raineri Mazzili - conservador, mas não ladrão. O golpe do dia 17 teve Cunha em seu comando. E isso já explica muita coisa ou quase tudo.

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