4/2/2016 Lula e a imprensa

4/2/2016 - quarta-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Em dezembro, farei 39 anos no jornalismo. De revisor da Folha, a dono de jornal de bairro, apresentador de programa de rádio AM, apresentador de programa de TV, editor de jornal diário, assessor de imprensa de prefeito, assessor de entidades sindicais e coordenador da Agência Sindical (há 25 anos) – fiz de tudo na imprensa.

Fui processado uma só vez, por escrever em boletim que certo presidente era “pelego”. Enredado pelo advogado puxa-saco, o dirigente me processou, alegando injúria, difamação e calúnia. Pedi ao juiz, por meu advogado, direito de provar o que havia escrito, e fiz; o processo morreu na primeira audiência.

Mesmo em eleições sindicais selvagens – e batendo muito – nunca fui processado, porque tudo o que escrevi tinha base material ou testemunhas. Mesmo no calor da encrenca, sempre procurei ter o cuidado de não ultrapassar o sinal, entendendo que crítica é diferente de achincalhe.

Quando secretário de redação de O Liberal, em Americana, fui procurado por uma moça que fazia graves acusações contra o locador da sua casa - e insistia: - Mas você vai publicar mesmo? A insistência me alertou e, por conhecer o proprietário, pedi que ele comparecesse à redação. Não era nada daquilo, e minha cautela evitou o enxovalhamento de um sujeito correto, médico querido pela população.

Conto essas miudezas pra chegar no caso Lula. É evidente que a imprensa exagera e prejulga, partindo da ideia de que o ex-presidente é desonesto, mentiroso e ganhou dinheiro de modo ilícito. É claro que se trata de uma campanha, porque o baronato da mídia combate tudo o que possa representar compromisso com o povo.

Como brizolista, testemunhei o massacre da Globo contra o líder trabalhista. Observo – e aí critico Lula – que Brizola nunca deixou a Globo sem troco; sempre bateu pesado de volta. Lula, não; com José Dirceu, ele foi chorar no enterro do Roberto Marinho. Critico também o PT, e me lembro que Dirceu atacava Quércia sistematicamente, pois isso lhe garantia espaço generoso no Estadão, cujo oportunismo está, agora, custando caro.

Poucas vezes votei em Lula, que conheci nas greves do ABC. Nunca tive maiores simpatias pelo PT, que - a exemplo da elite reacionária - destratava Getúlio e chamava Brizola e Jango de populistas. Nunca acreditei seriamente no projeto petista, pelo fato de relegar a terceiro plano a questão nacional e defender um falso liberalismo de esquerda.

Acho que o petismo tem muito a explicar aos brasileiros – impressionante como seus quadros foram virando consultores de empresas, grandes empresas, como se isso não representasse capitulação de classe. Tem casos e casos que se acumulam – Lubecca, Celso Daniel, mensalão, petrolão, gerando desgaste.

Mas, vale lembrar, muitas acusações não se confirmaram. Cito Luiz Gushiken, que foi apedrejado pela mídia e depois se verificou ser inocente; tem Genoino etc. Ao que consta, o China só falou uma vez a uma emissora de TV depois que saiu do governo – foi no Câmera Aberta Sindical, que eu apresentava na TV  Comunitária SP.

Lula não é apenas mais um político brasileiro. É símbolo do homem do povo que tinha tudo pra fracassar, mas venceu. Sua inteligência é notável. Lula é astuto, hábil e carismático. Seu governo dinamizou a economia, fortaleceu o mercado interno e distribuiu renda. Mas, entre outros erros, não articulou os movimentos sociais e setores da burguesia nacional, que agora se intimidam ou lhe dão as costas.

Lula, como todo cidadão, em havendo indício, deve ser investigado. Ainda que condenado, tem o direito de recorrer até a última instância. E, mesmo que, eventualmente, venha a ser condenado, não pode ser achincalhado, porque a dignidade individual é sagrada.

Não sou advogado do Lula, pois Nilo Batista tem as credenciais técnicas e morais. Não posso, porém, aceitar que seja denunciado e condenado pela imprensa, que exacerba seu papel e, ao agir assim, ao contrário do que destila em seus editorais, atenta contra preceitos elementares do Estado de Direito.

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