20/1/2016 - Histórias com Brizola

20/1/2016 - quarta-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Mal conhecia Brizola até sua volta do exílio. No começo dos anos 80, me aproximei dele por trabalhar em Americana com prefeito que havia sido do “Grupo dos 11”, pré-64. Na cidade, na gestão do dr.Tebaldi, participei de vários encontros com Brizola, inclusive da inauguração do primeiro Ciep do Estado. Participei de outros, depois, estado a fora.

Nas conversas que tínhamos no gabinete ou no “maracanã”, sala de reuniões, ouvi muitas histórias. Numa delas, Brizola relatou que sua primeira medida no governo do Rio de Janeiro foi proibir a polícia de entrar em residência sem ordem judicial. Contava, com aquele sotaque típico: “Chegam, chutam a porta do pobre, entram de arma em punho...”

Também falou de conversas com Nelson Mandela, seu colega de Internacional Socialista, uma delas sobre matança de jovens (em que o governo Moreira Franco não economizou bala). Na África do Sul, teria contado Mandela, matavam os negros e deixavam os corpos na beira da estrada. “Aqui, dizia Brizola, matam os jovens negros e jogam o cadáver nas gretas de morros”. E comentava: “Impedem a família de fazer os funerais”. Pior, portanto, do que fazia a elite racista do apartheid.

Brizola tinha preocupação real com as crianças e o angustiava o abandono da infância. Homem do campo, comparou povo a rebanho. “Lá nos pampas, quando falta água ou pasto, os rebanhos vão caminhando. Os mais fortes vão na frente; os pequenos ficam pra trás. Ocorre de um bezerro cair. A mãe vai lá, tenta levantar e fazer o filhote caminhar. Tenta, mas nem sempre consegue. Aí, lambe o filhote e segue adiante”. No Brasil, ele dizia, os pequenos eram abandonados sem, sequer, direito a uma reles lambida.

Também falou de quando procurou Roberto Marinho, buscando entender por que tanto ódio. Foi recebido pelo capo da Globo em escritório de vista deslumbrante. Brizola contou algo assim: “Falei, dr. Roberto, este País é tão grande, tão bonito, tem lugar pra todo mundo e fui falando entusiasmado.
Até perceber que ele cochilava e minha fala era inútil”.

Apoiei Brizola na campanha de 1989 e fui para as portas de fábrica apoiar sua candidatura. O fato gerou pretexto para minha demissão num Sindicato. Fiz, com Reginaldo Mendes, presidente dos Vigilantes, panfleto em seu apoio. Dizia: “Brizola é honesto; tem experiência”. Anos depois, entreguei a ele num Congresso da Federação dos Comerciários do Estado de SP – na presença de Luiz Salomão.

Na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ajudei a organizar encontro do movimento negro do PDT, com presença Abdias do Nascimento e um grande número de sindicalistas afrodescendentes. Estive no evento de ingresso de Francisco Rossi ao PDT; fui a encontro com Metalúrgicos de SP, na rua do Carmo; estava no ingresso de Jacó Bittar (Campinas) no Partido... e tantas coisas mais, inclusive na inauguração da sede da Federação dos Vigilantes, em Campinas, nos anos 90.

Apoiar Brizola naquela época, e circunstâncias, era dar murro em ponta de faca. Numa fábrica têxtil ouvi de um peão: “Nesse Brizola eu não voto porque ele é terrorista”. O ignorante falar isso, normal. Duro era ouvir gente da suposta esquerda (essa aí que desmoraliza a esquerda, desorganiza o centro e quebra a Petrobras) dizer que Brizola era atrasado, ultrapassado e populista.

Alegra-me ver Leonel Brizola resgatado nas redes sociais e crescer, entre os jovens, o interesse pelo estadista que pegou em arma pra defender a legalidade e não teve medo de peitar a agência de propaganda da ditadura – as Organizações Globo.

Brizola não acertou sempre. Mas o saldo de sua trajetória é memorável. Mais que uma vez apertei a sua mão e troquei palavras com ele. Chorei quando, em 1989, ele saiu do páreo porque o sistema, no segundo turno, conseguir impor sua tática, escalando um pra ganhar e outro pra perder. O Brasil seria outro se Brizola tivesse nos governado. Seria melhor, mais justo e com práticas políticas mais republicanas, porque, como certa vez, disse César Maia – “posso até achar que Brizola está ultrapassado, mas ladrão ele nunca foi”.

A Agência Sindical publica uma série de matérias sobre Brizola, ouvindo diversas pessoas. É uma forma de homenagear o patriota, o verdadeiro guerreiro do povo brasileiro, que faria 94 anos dia 22.


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