28/10/2015 - A camisa do MST

28/10/2015 - quarta-feira

João Franzin é jornalista
e diretor da Editora e Agência de Comunicação Sindical
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João Franzin

Nasci na roça, bairro Buriti, Auriflama, SP. Até os 16, morei na zona rural, filho de sitiante: sete alqueires, sete filhos. Colhi café, cuidei de gado, consertei cerca, rocei pasto, capinei carrapicho e picão.

Sou, por formação, adepto da pequena propriedade, que, na prática, significa a poupança da família aplicada à produção e o esforço dos grandes e pequenos 24 horas por dia, todos os dias (exceto dias santos, naquela época). Pequena propriedade, trabalho solidário, reforma agrária... que sempre defendi, mesmo em meio a uma cultura hostil à ideia e à pregação dos padres, serviçais dos fazendeiros.

Por isso, a Agência Sindical apoiou a 1ª Feira Nacional da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizada em São Paulo semana passada (22 a 25/10). Fizemos matérias, divulgamos em nossa rede, gravamos reportagens para TV.

Mais que isso: fui na sexta e no sábado (23 e 24) à Feira. Andei, entrevistei, conversei, comprei, comi, bebi. Testemunhei um evento muito bem organizado, atrativo, interessante, pacífico, sem uma única confusão, sem rodinhas de bêbado, sem desocupados. Ao contrário.

Entrevistei uma lavradora dos cafundós do Maranhão, que discorreu sobre agroecologia; ouvi um assentado técnico-agrícola (da Paraíba), que falou sobre plantio, colheita, armazenagem, comercialização; outro, em poucos minutos, contou que anda por aí ensinando controle natural das plantações (com ervas, insetos, pássaros), sem uso de agrotóxicos. E outros, por fim, louvaram o empenho do MST em levar educação para acampados e assentados.

Nós, de certa forma, raciocinamos e julgamos por padrões. Um dos padrões é de que o conhecimento é algo restrito e propriedade de grupos seletos. Uma simples rodada de conversa pela Feira do MST faria ver que não é bem assim. Ali, havia pobre vestido como pobre, com cara de pobre, com linguajar de pobre – mas de inteligência concreta, consciência social e base política sólida e articulada.

Sob todos os aspectos, a Feira da Reforma Agrária foi um sucesso, atraindo mais de 150 mil pessoas, sem precisar utilizar a grande mídia – outro mito a ser derrubado. Teve exposição, comércio, brincadeira pra criança, comes e bebes, seminário, discussão e música boa.

Com mais de 30 anos de atuação para o sindicalismo, não me lembro de vestir alguma camisa/camiseta de entidade – o que ganho passo à frente. Mas fiz questão de comprar a tradicional camiseta vermelha, que passarei a usar, sem abusar. Ao ensejo, desejo longa vida ao MST e a todos os que lutam – no campo e na cidade – para democratizar a propriedade da terra, pois lutam, em síntese, por dignidade.

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