19/8/2019 - O Brasil na encruzilhada do petismo-bolsonarismo - Leonel Cupertino

• 19/8/2019 - segunda-feira

Leonel Cupertino é cientista político,
assessor parlamentar da Queiroz
Assessoria em Relações
Institucionais e Governamentais.


Nas palavras do ex-senador Cristovam Buarque “Bolsonaro escolheu o PT como seu adversário em 2022 e faz tudo certo para isso acontecer. O PT escolheu Bolsonaro e faz tudo certo também. Os outros nada fazem e com isso fazem o que é necessário para que aconteça o que PT e Bolsonaro querem”. É exatamente isso.

A despeito da popularidade do ex-presidente Lula, os indícios já apontavam que nas eleições de 2018 eram pequenas as chances de vitória do Partido dos Trabalhadores. A crise econômica gestada no governo Dilma Rousseff e as ações da Operação Lava Jato minaram o capital político do partido mais orgânico do Brasil, além de tirar da disputa seu principal e mais expressivo líder.

Mesmo assim, havia uma chance. A [nem tão] inédita chegada da extrema-direita na corrida presidencial parecia ser a única esperança de vitória do partido que governara o Brasil ao longo de 13 anos — e que naquela ocasião estava em hiato após ser afastado por traumático processo de impeachment.

Ciente de que não se faz uma “omelete sem quebrar os ovos”, as articulações na carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR) começaram a vitimar aliados. Primeiro, o pré-candidato a governador de Minas Gerais pelo PSB, Márcio Lacerda, e depois a pré-candidata a governadora de Pernambuco pelo PT, Marília Arraes, foram sacrificados à luz do dia para garantir a neutralidade dos socialistas e evitar o crescimento de uma linha tida como auxiliar do campo progressista, encabeçada pelo ex-ministro Ciro Gomes, então candidato à presidente da República, pelo PDT.

Mesmo assim, o campo progressista brasileiro chegou à eleição com 3 alternativas: Fernando Haddad (PT), alçado de poste à candidato oficial com as bênçãos de Lula, e que tentou durante toda a campanha atrelar sua imagem à do ex-presidente; Ciro Gomes (PDT), isolado politicamente e cuja única arma era o discurso; e Guilherme Boulos (PSol), que aglutinou uma minoria mais radical da esquerda, sem chances efetivas e reais de chegar ao 2º turno.

Do outro lado, Jair Bolsonaro ia planando tranquilo sua trajetória. Fenômeno sem precedentes na história da chamada “democracia digital”. Institutos do quilate da Fundação Getulio Vargas apontavam em seus levantamentos que ninguém era capaz de superá-lo quando o assunto era engajamento nas redes sociais. A facada que o candidato do PSL sofreu na cidade de Juiz de Fora (MG), em setembro, deu a justificativa ideal para afastá-lo dos debates, garantindo-lhe blindagem à sua retórica politicamente incorreta.

As forças de centro, atarantadas, atuaram como uma ponte que liga nada a lugar algum, e foram sumariamente dizimadas por eleitores que cobravam posicionamento escancarado do establishment sobre as pautas morais, mais do que das econômicas ou sociais.

O 2º turno desenhou-se da melhor maneira, tanto para os bolsonaristas, quanto para os petistas, e uma Nação ressentida com a política e com a corrupção deu aos conservadores uma vitória convincente, lançando o País numa trilha até então desconhecida para boa parte dessa geração.

Recentemente, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou ao jornal Folha de S.Paulo que a vitória de Jair Bolsonaro havia sido “fruto dos nossos erros” (sic) e, de fato, a busca incessante de certas figuras políticas, individualmente, pelo protagonismo do processo eleitoral fizeram com que o cidadão médio escolhesse aquele com o discurso que mais se distanciava das práticas políticas vivenciadas até então. A população queria mudança, e naquele contexto qualquer mudança parecia servir.

Já no discurso em que reconheceu a derrota, Fernando Haddad deixou claro quem seria o adversário do PT em 2022. Da mesma maneira, desde que assumiu o governo em 1° de janeiro, Bolsonaro tem se esforçado de maneira poucas vezes vista no Brasil para destruir todo e qualquer rastro minimamente positivo herdado dos governos petistas. O “mal maior” é, para ambos os lados, seus respectivos algozes. Petistas e bolsonaristas não são apenas adversários políticos ou ideológicos, são inimigos irreconciliáveis.

As forças moderadas, exauridas após o processo eleitoral de 2018, aparecem sem forças ou folego para competir em pé de igualdade com a polarização instalada e poderão ser dragadas pelos 2 polos da disputa, se transformando em satélites do petismo e do bolsonarismo.

Nas palavras do ex-senador Cristovam Buarque (PDT-DF), “Bolsonaro escolheu o PT como seu adversário em 2022 e faz tudo certo para isso acontecer. O PT escolheu Bolsonaro e faz tudo certo também. Os outros nada fazem e com isso fazem o que é necessário para que aconteça o que PT e Bolsonaro querem”. É exatamente isso.
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