Para consultor do Diap, atraso político acelera marcha à ré do País

• 16/5/2019 - quinta-feira

Experiente consultor sindical e político, Antônio Augusto de Queiroz (Toninho do Diap) é uma das lúcidas cabeças do campo progressista nacional. Com autonomia política, ele acompanha de perto os movimentos do poder em Brasília.

E foi na condição de observador atento da vida nacional que concedeu entrevista à Agência Sindical, para o Vídeo da Semana, quando alertou que Bolsonaro “não olha pro futuro e sim querer ajustar contas com o passado”.

Para o consultor, o Presidente tem uma visão equivocada do Estado. Ele comenta: “Sem Estado, nem há capitalismo. Afinal, é o Estado que cuida dos marcos regulatórios, orienta ações concretas e controla a moeda”. Antônio Augusto de Queiroz também vê com preocupação a ideia bolsonarista de armar fazendeiros. “Ao fazer isso, o Presidente coloca a propriedade acima da própria vida”, critica.

Trechos - Acompanhe os principais trechos da entrevista. Para Toninho, é preciso estimular o debate em torno da questão nacional, evitando-se um retrocesso civilizatório.

Congresso Nacional - A maioria tem perfil muito conservador, o que dificulta atuar como Poder moderador frente a ações do governo contra os trabalhadores. “Quando se avalia esse Congresso, a gente vê que ele é liberal do ponto de vista econômico, fiscalista do ponto de vista da gestão e conservador do ponto de vista dos valores. A maioria está à direita do espectro político; é atrasada quanto a direitos humanos e ao meio ambiente.”

Desequilíbrio - "Contraditoriamente, o Congresso nega o sistema político, onde todos, só pelo fato de serem tradicionais, são ruins, contrários ao interesse público; é uma visão distorcida. Isso tem levado pessoas, mesmo atrasadas em alguns aspectos, a se destacar pela ponderação. Isso se dá, inclusive, com o vice-presidente, frente ao descalabro, à loucura, que é o pensamento do Presidente, o que permite a Mourão se apresentar como equilibrado".

Política - "Vamos depender da imprensa pra fazer a crítica qualificada, chamar atenção pra esses excessos. Vamos depender de organismos internacionais a fim de chamar atenção pra isso, dos outros poderes, com capacidade de fiscalização e controle, de órgãos como o Judiciário e o Ministério Público. Porque, a depender só do Executivo e do Congresso, a mentalidade preponderante é a negação da política, a negação do Estado.

Não pode existir capitalismo sem um Estado que faça os marcos regulatórios, defina proteção aos direitos humanos, meio ambiente, regule a moeda, garanta contratos. O capitalismo precisa do Estado, e não há solução para os problemas coletivos fora da política".

Civilização - "A política é a invenção mais criativa do processo civilizatório, porque ela permite, a partir do diálogo, resolver de forma pacífica as contradições que na sociedade o indivíduo não pode avocar para si. O Presidente, com essa ideia de que o dono possa sobrepor a propriedade à própria vida, ou seja, utilizar de arma, matar, sem ser punido, se eventualmente alguém invadir sua propriedade - isso é uma distorção monumental, pois representa um risco muito grande de atraso no processo civilizatório".