*Por Ricardo Patah ....................................................................................................
Os correntistas, bancários e lideranças sindicais e políticas sabem que não interessa ao sistema financeiro brasileiro uma greve prolongada nos bancos.
Por que, então, os bancos brasileiros (incluindo os bancos públicos como Caixa e Banco do Brasil) aceitaram a provocação articulada pela Federação dos Bancos (Fenaban) e propuseram aos bancários brasileiros apenas 8% de reajuste, para uma inflação de 7,36%, acumulada no período? Diante dos R$ 36 bilhões de lucros, apenas no primeiro semestre de 2011?
A provocação foi seguida de uma greve que se prolonga há mais de 12 dias e causa surpresa por não preocupar, aparentemente, o poder público e muito menos os analistas financeiros, tão sensíveis a qualquer ruído que se crie no sistema bancário brasileiro.
Por trás da provocação que resultou na greve e do endurecimento dos banqueiros em não reabrir negociações acontece uma perversa manipulação dos bancos brasileiros para se criar correntistas de segunda categoria. Com o objetivo adicional de desestabilizar a organização sindical nos bancos.
Os correntistas de primeira classe seriam atendidos nos bancos, de preferência pela internet. E os correntistas de segunda classe serão empurrados para os correspondentes bancários (loterias, postos dos correios etc.), como tem acontecido ao longo da atual greve.
Apenas 43% dos brasileiros adultos são bancarizados, apontou o estudo da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban). Dito de outra forma: é preciso bancarizar 57% da população, composta, sobretudo, pela baixa renda.
Mas para incluir no sistema bancário esse enorme contingente de população, os bancos brasileiros precisariam investir em mais agências e na contratação de mais pessoal. E, principalmente, negociar com responsabilidade as reivindicações salariais dos bancários.
“Para os correntistas da base da pirâmide, os aposentados e pensionistas, sobram apenas os correspondentes bancários. Uma improvisação que cria no sistema financeiro brasileiro correntistas de segunda classe”, nos alerta Edson Roberto dos Santos, vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito (Contec) e presidente do Sindicato dos Bancários de Franca, entidades filiadas à União Geral dos Trabalhadores (UGT).
Os banqueiros sonham com bancos cem por cento digitais, com os seus correntistas de primeira classe operando via internet e celulares inteligentes, conforme registra a mais recente pesquisa divulgada pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).
Segundo a pesquisa, os bancos brasileiros gastaram mais de R$ 22 bilhões em tecnologia da informação em 2010, um crescimento de 15% em relação a 2009. O levantamento mostra, também, que as transações bancárias atingiram quase 56 bilhões de operações em 2010, das quais as oriundas de internet banking já representam 23% do total. Segundo o mesmo estudo, “o número de agências bancárias e postos de atendimento convencionais estabiliza, com crescimento de 1% em 2010”.
“Apesar dos banqueiros menosprezarem os aspectos humanos da prestação dos serviços bancários, não existe banco sem relações humanas e comerciais com os correntistas e, principalmente, sem bancários”, nos chama a atenção Lourenço Prado, presidente da Contec, à frente do movimento grevista dos bancários e que conseguiu negociar com o Banco de Brasília (BRB) o reajuste de 17,45%, fora da influência da Fenaban.
E se depender da UGT, que tem como principal bandeira a inclusão social e econômica, vamos continuar mobilizados para que não venham a existir no Brasil, como querem os bancos, correntistas de segunda classe. |
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Ricardo Patah é presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) |
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