Twitter Youtube Orkut
Livreto produzido pela Agência Sindical
16 de setembro de 2011

Evaristo, padre cristão

*Por João Franzin.................................................................................................................

Não costumo gostar de padres. Na minha infância, meu pai, quando queria dizer que alguém era mole de serviço, dizia: esse sujeito tem mão de padre. Ou seja, mão macia, de quem ficava longe do cabo de guatambu e do trabalho duro. Até hoje, quando minha mão começa a ficar mole, faço exercícios com um tronco torneado, pra endurecer a palma.

Outra razão. Na minha memória, ligo padre à delação. Tive pessoa da família delatada por um padre da cidade, que suspeitava de simpatias comunistas de uma jovem estudante. Quando iniciei no movimento sindical, vi paróquias fazerem campanha sistemática contra dirigentes sindicais corretos e soube de padres que os difamaram nas missas, pelo fato daquelas pessoas manterem ou terem mantido ligação com o PCB. Já nos anos 80, flagrei padres e seminaristas indo à casa de trabalhadores pedir que não votassem em nossa chapa sindical, porque, claro, éramos comunistas.

Sempre fugi da Igreja. Ia às missas obrigado e mentia para minha mãe dizendo que havia confessado. Ainda moleque, nunca aturei a adulação dos padres a fazendeiros e aos ricos em geral - o oposto do tratamento que dispensavam à gente pobre e crédula.

Na ditadura, essa gente fez grandes estragos, especialmente nas cidades pequenas, onde padre, prefeito e delegado constituíam o poder real. Nunca esqueço que ao publicar o primeiro artigo em jornal (1974), uma croniqueta besta, um colega de trabalho me alertou: cuidado. O padre fulano (um salesiano) pode achar que você é comunista.

Mas há exceções. A mais extraordinária de todas é a do Padre Antonio Vieira, que nos deixou os mais belos textos da língua portuguesa. Inteligente, ousado e à frente de seu tempo, ele foi um corajoso defensor dos judeus contra as perseguições em Portugal. Seu “Sermão da Sexagésima” é, ainda hoje, uma insuperável e primorosa manifestação de estilo, lógica, dialética, retórica e efetiva lição de comunicação.

Outra exceção é o padre que acaba de fazer 90 anos: Dom Paulo Evaristo Arns. Esse aí, sim, ficou do lado certo, dirigiu o sacerdócio para o bem coletivo, exercitou a tolerância, teve coragem e amou desinteressadamente, como, aliás, ensina seu colega Vieira no “Sermão do Mandato”. A Dom Evaristo, um padre cristão, o meu respeito e agradecimento.

João Franzin é jornalista
e assessor sindical