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Livreto produzido pela Agência Sindical
22 de julho de 2011

Turismo carece de empresários qualificados


*Por Francisco Calasans Lacerda ...................................................................................

É impressionante a falta de sensibilidade dos empresários do setor de hotéis, restaurantes e bares em relação à remuneração de seus empregados. Todos nós sabemos que nosso País tem potencialidade gigantesca para o turismo. Todos sabemos, também, que é de suma importância nesse setor o aprimoramento profissional, principalmente no manejo com idiomas estrangeiros, além de razoável correção no uso do nosso Português.

Agora, essa preocupação começa a tomar corpo em função dos grandes eventos desportivos que serão sediados pelo Brasil. Evidentemente, para que se tenha profissionais a esse nível, faz-se necessário que os empresários sejam também aperfeiçoados, pelo menos ao ponto de serem capazes de entender o óbvio. Por exemplo: entender que não se pode exigir qualificação razoável sem a correspondente remuneração, ou seja, igualmente razoável. Isto é o óbvio.

Todavia, para que se tenha ideia da insensibilidade humanitária e da incompetência empresarial reinante, basta a constatação de que o melhor Piso Salarial da categoria no País, que é o do Sinthoresp, R$ 770,56, é duzentos Reais a menos do que o Piso da construção civil, para um servente de pedreiro. É claro que todo trabalho é digno. Porém, não se ter sensibilidade para entender que o atendimento ao público requer melhor qualificação é declarar-se incompetente como empresário. É declarar-se retrógrado ao ponto de não inspirar a menor esperança de contribuição para o desenvolvimento setorial de que tanto carece o Brasil.

Dia 26 de junho, Felipe Frazão de “O Estado de S. Paulo” publicou entrevista com Helmut Waser, um profundo conhecedor da hotelaria, de origem suíça, que esteve em visita ao Brasil, o qual observou a falta de estímulo aos profissionais que ocorre em nosso País onde a remuneração é muito baixa e não há por parte do empresário interesse em aproveitar aqueles profissionais que concluem cursos universitários especializados etc. O jornal foi exibido aos representantes patronais, em mesa de negociações realizada recentemente, mas não causou o menor constrangimento.

Chega a ser revoltante ver nas negociações que estão ocorrendo, para quem tem data base em 1º de julho, a postura radical dos representantes patronais: a razoável pretensão dos trabalhadores, de obter aumentos reais gradativos, até que se alcance o valor que está sendo pago na construção civil, a um servente de pedreiro, é rechaçada principalmente pelos representantes de grandes hotéis e de luxuosos restaurantes, que oferecem como contraproposta pagar apenas 70% da inflação acumulada. Ora, pagar menos do que o índice inflacionário acumulado é o mesmo que propor redução de ganho. Significa que esses patrões, ao contrário do que se pudesse esperar, acham que trabalhadores com a qualificação que a realidade está a exigir – bom nível de instrução e conhecimento de pelo menos um idioma estrangeiro – devem se distanciar, para baixo, do quanto ganha um servente de pedreiro. Que lástima! Isso acontece no momento de maior aquecimento na hospedagem, com os hotéis e restaurantes abarrotados de clientes.

O retrocesso patronal chega às raias da ofensa moral. Sim, porque demonstra arrogância e instinto escravocrata, e isso ofende a cidadania.

Urge uma requalificação dos empresários do setor, para que alguma evolução se possa esperar para o Turismo do Brasil.

Ao senhor ministro do Turismo: se alguma coisa V.Exca pode fazer, não perca tempo, por favor. Requalifique os empresários e não gaste o dinheiro público na qualificação da mão de obra enquanto não houver estímulo para a permanência de trabalhadores qualificados no setor. A menos que se admita que o Turismo seja uma atividade de somenos importância para o Brasil.

Ressalte-se que o salário mínimo a que se refere o Inciso IV, do Artigo 7º, inserido no Capítulo II – DOS DIREITOS SOCIAIS – na Constituição Federal, equivale atualmente, segundo o Dieese, a mais de R$ 2.200,00. Aliás, atualizando-se o salário mínimo concedido por Getúlio Vargas em 1954, chega-se de igual modo a valor semelhante. Logo, a consciência humana está a sugerir que sejam concedidos aumentos de forma paulatina na direção desse ganho essencial. É questão de ética, de cidadania, de amor à Pátria.

Lembrai senhores, que a economia dos Estados Unidos chegou a ser a maior do Planeta porque pode contar com empresários de visão como Henry Ford que elevou o salário mínimo de três para seis dólares semanais.

Alguma coisa há que ser feita conjuntamente: Ministério de Turismo, Ministério do Trabalho e Emprego, Confederação dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade e a própria Comissão Parlamentar de Turismo e Desporto. Evidentemente, os ministros e os membros da Comissão não poderão impor à classe empresarial que paguem melhores salários. Poderão, entretanto, convencê-los de que esse é o melhor caminho. Enquanto um trabalhador do Turismo tiver Piso Salarial inferior a um servente de pedreiro. Com efeito, em São Paulo, o Piso para servente de pedreiro e outras funções não-qualificadas, é R$ 910,80, enquanto o de empregados de grandes hotéis e restaurantes de luxo é R$ 770,56. A diferença entre o ganho de um trabalhador não-qualificado da construção civil e o trabalhador da hospitalidade é R$ 140,24. Isso ocorre no momento em que os hotéis e restaurantes andam lotados.

Por conseguinte, antes de se investir dinheiro público na qualificação de mão de obra para o setor é preciso que se cuide de melhorar a mentalidade do empresário.

Sem nenhum demérito, afinal todo trabalho é digno. Mas, querer que alguém busque qualificar-se para ganhar menos do que um trabalhador não-qualificado da construção não guarda a menor coerência.

Francisco Calasans Lacerda é presidente do Sinthoresp, presidente em exercício da Contratuh e diretor jurídico da Nova Central (NCST)