Twitter Youtube Orkut
Livreto produzido pela Agência Sindical
11 de julho de 2011

Confusão Carrefour-Pão de Açúcar
atenta contra o interesse público


*Por Quintino Severo..............................................................................................................

O anúncio de fusão entre o Pão de Açúcar e o grupo francês Carrefour no Brasil tem um “detalhe” fundamental e escabroso: a injeção de uma montanha de recursos públicos, por parte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), através da BNDESPar. Sob a alegação da hipotética criação de um “campeão nacional”, o BNDES – financiado em boa parte com dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – entrará com até R$ 4,5 bilhões.

Como conselheiro do FAT, indicado pela Central Única dos Trabalhadores para defender os interesses maiores da classe e da sociedade brasileira, não há como deixar de expressar a nossa mais ferrenha oposição à utilização de recursos do BNDES nestas mais do que nebulosas operações privadas.

Afinal, além de não condizer minimamente com os princípios do FAT, tal fusão é um verdadeiro atentado ao bom senso. Não é papel de instituições públicas, bancadas pelo suado dinheiro dos trabalhadores, fomentar o desemprego, o arrocho de salários e o fim da concorrência, que prejudicaria a todos com a prática de preços monopolistas.

Nosso compromisso como conselheiro do FAT é zelar pelo interesse do trabalhador e buscar com que os recursos ali arregimentados sejam utilizados para promover o desenvolvimento do nosso mercado interno, nunca negócios – nem negociatas – bilionários como o que está em pauta na “fusão” do Pão de Açúcar com o Carrefour.

Enquanto a economia solidária, micro e pequenos empresários encontram imensas dificuldades para se manter, afogados pelas mais altas taxas de juros do mundo e por condições de crédito mais do que desfavoráveis – especialmente após o último arrocho dado pela equipe econômica – as torneiras do BNDES se abrem generosas para os dois gigantes. O que está em jogo é a formação de uma mega-empresa que dominará quase um terço do varejo no Brasil num setor que movimentou R$ 201,6 bilhões no ano passado. Deste “mercado”, o Pão de Açúcar respondeu por 17,9% das vendas (considerando Casas Bahia e Ponto Frio), seguido pelo Carrefour, com 14,4%.

O mais absurdo de tudo é que com todo esse volume de dinheiro público, o Pão de Açúcar nada será além de uma companhia francesa, desmentindo o argumento fantasioso de que estaria em curso uma “internacionalização de grupos nacionais”. Cambaleando na França, onde projeta uma queda de 35% em seu resultado operacional, com as vendas descendo a ladeira em função da crise que assola aquele país e a Europa, o Carrefour busca tão somente mercado. Seu faturamento anual, que alcança 12,4 bilhões de euros no Brasil – incluindo a rede Dia –, passaria para 30 bilhões de euros uma vez concretizada a fusão.

A questão de fundo a ser debatida pela sociedade é se queremos dar um cheque em branco a uma concentração predatória, que vitaminará um monstruoso monopólio no setor varejista ou se queremos um modelo de desenvolvimento que combata as desigualdades regionais, promova as economias locais, as micro e pequenas empresas, justamente as que seriam tremendamente prejudicadas – e sufocadas – caso seja consumado este verdadeiro atentado ao interesse público.

Quintino Severo
é secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores