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A puta que virou metalúrgica

Otacília cansou de se virar na boca do lixo, de tomar porrada do cafetão, de dar dinheiro pra polícia. Cansou e tomou uma atitude. Foi no Ministério do Trabalho, tirou Carteira da Trabalho zero quilômetro e saiu procurando emprego. Foi dar numa fábrica no Cambuci, meio metalúrgica, meio química, fez ficha, foi contratada, auxiliar de serviços gerais.

Foi posta pra tirar rebarba de peças de plástico, saídas ainda quentes das máquinas injetoras. Pegava a peça, passava a faquinha, removia as rebarbas e partia pra próxima peça. Seu local de trabalho era no fundo do galpão da fábrica, numa espécie de puxadinho do mezzanino. Era o local seu de trabalho, de umas outras 30 mulheres e do chefete maricona de nome Ézio.

O chefete vivia saltitando pela fábrica, rebolando pela ferramentaria até chegar no Pessoal, onde se entendia com o chefe do DP, um sujeito fraquote, com quem confabulava e destilava fofocas. Ézio não foi com a cara de Otacília.

E Otacília não foi com a cara dele. Mas trabalhavam ali, ela escondendo seu passado e ele caçando pêlo em ovo pra fofocar no DP ou puxar o saco do filho do patrão, um playboy ocupado em torrar a mais valia do pai em carrões esportivos e rachas nas noites de sexta.

Otacília gostava de mexerica. Gostava e levava pra fábrica. Gostava, levava, descascava e comia ali mesmo na bancada de trabalho. Foi sua tragédia. O Ézio até então não havia se tocado. Mas, sabe como é, cheiro de mexerica espalha. E o folgado saiu caçando em cada banca, até chegar na de Otacília, de quem tentou tomar a fruta.

A mulher subiu nas tamancas. Não entregou. Resistiu. Resultado: foi levada ao DP, foi advertida. Retrucou. Foi suspensa. Esperneou. Foi enquadrada. Estrilou. Tomou justa causa. Aí, a casa caiu.

A mulher desancou padre, bispo e coroinha. Disse que só saía dali com a Carteira dado baixa e o dinheiro na mão. O chefe do DP, cheio de marra, alegou que só pagaria dias depois. Tinha que marcar data.

Pra quê? Baixou uma maria padilha na mulher e corno e filho da puta foi elogio perto do que ela despejou. Todo o repertório da putaria desabou ali. Paredes tremeram. A ferramentaria parou. O Ézio teve um ataque de nervos. O chefe do DP gelou. Até que alguém chamou a Polícia.

Veio a baratinha preto e branco, dois soldados desmilinguidos adentraram o Departamento de Pessoal. Pediram pra dona se retirar. Ela firmou pé: só sairia com o dinheiro na bolsa e a Carteira dado baixa. Sai, não sai; fica, não, fica; paga, não paga, a Otacília perdeu as estribeiras. Sobrou pros gambés: filho da puta, achacador, corno, por aí.

Só teve um jeito: algemar. Mas a mulher não se abateu. Daqui ninguém me tira. Só arrastada. E assim foi, puxada pelos braços, os pés riscando o chão, fazendo um caminho entre as limalhas e sobras de metal da ferramentaria. Enxotada. Sem a Profissional. Sem o dinheiro. De volta pro carro da Polícia, onde tantas vezes ela tinha sido levada nas rondas da madruga de sexta, quando os gambés davam um giro pra tomar algum das putas da boca, ali pela Barão de Limeira, rua do Timbiras, Andradas...

Isso foi em 1976. Ditadura. Geisel. Sindicalismo acuado. Povão tratado a pontapés. Direitos humanos jogados no lixo. Liberdade, palavrão. Faz tempo. Mas eu não esqueci. A Otacília, onde estiver, também não.

João Franzin