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As vozes da guerra de 12 anos

Ao término de “Vozes Inocentes” confesso que tive dúvidas sobre a intenção de Luis Mandoki em seu novo filme. O diretor mexicano cujas últimas produções, “Encurralada”(2002) e “Olhar de Anjo” (2001), são filmes hollywoodianos e como tais, desinteressantes e pueris.

“Vozes inocentes” narra a história de um menino de 12 anos que, nos anos 80, durante a guerra civil em El Salvador, vê seu pai abandonar a família e sofre com a chegada do seu aniversário. Sofre porque, durante a guerra em El Salvador, todo menino era obrigado a lutar nas tropas do governo ao completar 12 anos – financiado pelos EUA da época de Ronald Reagan. Com Chava (personificação de Oscar Orlando Torres, que fez o roteiro baseando-se em sua própria história), não seria diferente, a não ser que seguisse os passos de seu tio Beto (José Maria Yazpik) e se integrar ao movimento guerrilheiro que lutava, principalmente, pelo direito à terra.

Mandoki não é um ativista, “Vozes inocentes” não se propõe ser um filme-manifesto e muito menos é uma obra com a importância, por exemplo, de “A batalha de Argel”. Mas é um belo filme, que Mandoki dirige com grande carga de emoção - acentuada pela trilha de André Abujanra.

Ao mostrar a guerra pelo prisma de um menino de 12 anos, Mandoki se concede algumas liberdades, como dar uma visão maniqueísta do conflito segundo a qual o papel de mocinho cabe aos guerrilheiros e, ao exército, cabe o papel de vilão.

O filme, ao retratar a história recente de El Salvador - muito parecida com a da maioria dos países da América e África – carrega demais, algumas vezes, no sentimentalismo. Mas se todos os espectadores que se emocionaram com o belo rosto do menino Chava (Carlos Padilha) sofrendo com os horrores da guerra lembrarem que mais de 75 mil pessoas morreram, 8 mil desapareceram, tantos outros foram exilados e, ainda, que não é necessário ir até o noroeste da América para ver uma criança tendo seus direitos arrancados pelo sistema capitalista, já valeu muito Luis Mandoki ter se aventurado neste assunto sério e delicado.

Jonas Martinelli