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Por Ricardo Flaitt
Todos os movimentos do homem são muito bem pesados e medidos. Não existe nada aleatório no jogo político mundial. Willian Walker chega a Queimada com a missão de mudar a ordem do poder local, quebrar o monopólio português sobre a cana-de-açúcar para atender aos interesses da Coroa Inglesa. Mas como remover a ordem estabelecida em Queimada? Para isso, Walker tem de encontrar/forjar um líder entre a população para deflagrar a revolução. Willian vê essa possibilidade no escravo José Dolores (Evaristo Marquez). Assim incita seus anseios de liberdade, levando-o à condição de revolucionário. Com o discurso de que sua intenção é acabar com a exploração dos negros, Walker manipula José Dolores e sua liderança para alcançar os interesses econômicos liberais da Inglaterra. Hábil, astuto, maquiavélico, Walker une dois interesses: o anseio dos negros para se libertarem e, ao mesmo tempo, a mudança do centro do poder na ilha. Com José Dolores consolida a revolução. Os negros depõem o governo, mas o ex-escravo descobre que não seria ele o governante do país. Indignado, assume o poder à força. Mas seu “mandato” não dura muito, pois governar não é tão simples como os sonhos dos românticos e dos idealistas. Willian Walker questiona o então presidente de Queimada, José Dolores: “Quem serão seus ministros? Com quem você irá negociar?...”. Ou seja, como comandar o país e inúmeros interesses que o permeiam? Com olhar perplexo, Dolores se vê perdido, sem a dimensão de que para governar é preciso muito preparo. Em outro diálogo carregado de ironia, Walker fala a Dolores: “A civilização é muito complicada”. Diante desse impasse, Dolores resolve fazer um pacto. Concorda que o país seja governado por outro representante, desde que sejam feitas algumas mudanças, como a libertação dos escravos. Após nove anos, Willian Walker retorna a Queimada, que vive sob uma ditadura. Dolores já não estava no poder e voltara a ser um revolucionário. Mas agora Walker não está mais “precisando” de Dolores, uma vez que os que estão no poder obedecem à “Rainha”. A resistência de Dolores precisa ser eliminada. Dolores precisa ser morto e passa a ser caçado como inimigo do Estado. Cabe aqui perfeitamente uma citação de Maquiavel: “Os homens mudam de governantes com grande facilidade, esperando sempre uma melhoria. Essa esperança os leva a se levantar em armas contra os atuais. E isto é um engano, pois a experiência demonstra mais tarde que a mudança foi para pior”. Os governantes fazem com que o povo acredite que eles ocuparão o poder e terão oportunidade de decidir seus destinos, mas, ao final, constata-se, no círculo vicioso da História, que o povo, ainda que sob uma nova roupagem, continua a ser “massa de manobra” daqueles que detém o capital e o conhecimento, já que o saber também é uma forma de poder. Queimada é uma aula de política, envolve temas sobre um determinado período da História (inclusive do Brasil) e a relação do homem e seus interesses. Essencial para se entender os mecanismos do mundo. Queimada não tem a pretensão enfadonha de narrar uma história romântica dos oprimidos. É um grande filme porque mostra como funciona o mundo. Não defende opressores nem oprimidos, mas mostra com inteligência como as coisas operam na política, com todos os seus jogos e interesses. Curiosidades – No filme, Queimada é uma ilha portuguesa, mas a verdade é que foi rodado na Colômbia. Outro ponto é que Portugal não colonizou nada nas Antilhas e, num diálogo, Brando explicou erroneamente: “Você sabe que Portugal e Inglaterra são inimigos tradicionais” (isso acontecia com a Espanha, Portugal sempre foi aliado da Inglaterra). Evaristo Marquez, que interpretou José Dolores nunca tinha sido ator e muito menos tinha visto um filme no cinema. Ricardo Flaitt é assessor de imprensa da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo. Com a colaboração do sociólogo Marco Antonio Mota Queimada (Burn!, 1968), de Gillo Pontecorvo. Drama. Elenco: Marlon Brando, Renato Salvatori, Norman Hill, Evaristo Marquez, Tom Lyons. Música de Ennio Morricone. Colorido, 132 minutos. Veja também outros filmes do diretor Gillo Pontecorvo: A Batalha de Argel (1966) e Kapò (1959). |
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