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A diretora Lucia Murat tenta (e consegue) responder a essa pergunta – provocativa, confesso, mas colocada em questão durante toda a projeção – no bom “Quase dois irmãos”. No filme, os roteiristas (Murat e Paulo Lins) voltam à época da ditadura, mais especificamente no começo da década de 70, para contar a convivência de presos políticos com presos “comuns” no presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. A história conta a vida de Miguel e Jorge, o primeiro interpretado por Caco Ciocler e o segundo pelo excelente Flavio Bauraqui (o Tabu do filme “Madame Satã”, 02), que se conhecem ainda crianças na década de 50 e tornam-se amigos pelo amor ao samba. Passada a infância, eles se reencontram em mais duas oportunidades: em 70 no presídio de Ilha Grande, que é o período onde se passa a maior parte da história; e em 2004, quando Jorge torna-se líder do tráfico no Rio de Janeiro e Miguel, senador da República. “Quase dois irmãos” aborda um assunto delicado e difícil. Não escorregar em algum momento – como estereotipar policiais, os tais presos comuns, os traficantes do morro, os revolucionários etc. – seria uma proeza. Por isso, o filme escorrega sim, mas nada que o desqualifique frente a excelência de algumas cenas e diálogos. Por exemplo, a cena em que Caco Ciocler está preso em uma solitária e canta “Heróis da Liberdade”, de Silas de Oliveira ou, ainda, as trêmulas tomadas de um desfile no sambódromo do Rio com a música de Nana Vasconcellos ao fundo, já vale mais que qualquer escorregão. Este terceiro longa de ficção da também documentarista Lucia Murat oferece uma visão critica da classe média e sua ação na época da ditadura. “Quase dois irmãos” é um dos poucos filmes nacionais que o balanço feito da luta armada, da degeneração social, das desigualdades sociais e raciais faz você pensar extra sala de projeção. |
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