Copom ignora perigo da crise avançar
e faz corte tímido da Selic

Foto: Valter Campanato/ABr

Centrais Sindicais carregam um boneco do presidente do BC,
Henrique Meirelles, e reivindicam a queda dos juros em Brasília.

A redução de 1,5 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), anunciada na quarta-feira (11) pelo Copom (Comitê de Política Monetária), foi considerada tímida pelos dirigentes das Centrais Sindicais. A taxa caiu de 12,75% para 11,25%.

O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (Paulinho), avalia que a decisão do Copom “é nefasta para os trabalhadores”. “Infelizmente, mais uma vez, o governo se curva diante dos especuladores”, lamenta Paulinho.

O líder sindical avalia que o Banco Central perdeu “uma ótima oportunidade de afrouxar um pouco a corda que está estrangulando o setor produtivo, que gera emprego e renda”. Paulinho observa que a queda de 3,6% no PIB do último trimestre de 2008 “é resultado da hesitação dos membros do Copom em baixar os juros de forma mais agressivas”.

Crescimento - Para o presidente da CUT, Artur Henrique, a queda da Selic “era a única decisão aceitável diante da conjuntura”. Ele ressalta, no entanto, que o corte deveria ter sido maior. “O Brasil ainda tem chances de registrar crescimento em 2009, e devemos ser ousados para não perder a oportunidade”, afirma Artur. Já o vice-presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, "está sabotando a economia nacional, em um momento que se faz necessário ampliar investimentos, estimular o consumo e fortalecer o mercado interno.

Wagner Gomes, presidente da CTB, disse que “é indispensável enfatizar que o passo dado ainda peca por timidez”. “O corte não foi suficiente para nos retirar da condição de campeões mundiais dos juros altos”, assinala, alertando que diante do avanço da crise os BCs dos países ricos estão apelando para taxas de juros inferiores à inflação.

Acampamento - Nos dias que antecederam o anúncio da nova Selic, o movimento sindical se mobilizou em nível nacional para pressionar o colegiado a fazer um corte mais drástico na taxa de juros. Enquanto durou a reunião do Copom, as Centrais realizaram manifestações em defesa de uma taxa na casa de um dígito. Em Brasília e São Paulo, os dirigentes sindicais montaram acampamentos em frente ao Banco Central.

“A redução da taxa Selic, em 1,5 ponto percentual, fixando-a em 11,25% ao ano, é irrisória, não estimula a economia nacional e frustra a expectativa dos trabalhadores, que estão sendo demitidos ou tendo que abrir mão de parte dos salários para manter os seus empregos”, denuncia o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Miguel Torres.

Mais informações:
Sites - www.fsindical.org.br, www.cut.org.br, www.portalctb.org.br

Demissões na Embraer será debatida
em audiência na Câmara

A Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (11), requerimento para realizar audiência pública sobre as demissões ocorridas na Embraer. A audiência foi proposta pela deputada Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) e pelo líder do Psol, Ivan Valente (SP). A data da audiência será marcada em seguida.

__Foto: Roberto Jayme / Reuters Brasil
Em 19 de fevereiro, 4.270 trabalhadores da Embraer foram demitidos. Dias depois a Justiça do Trabalho em Campinas suspendeu as demissões, até a realização de uma reunião de conciliação, marcada para a próxima sexta-feira (13). Mas, nesta quarta (11), a empresa desafiou a decisão judicial, anunciando que não negociará as dispensas.

A direção da Embraer também insinuou que os trabalhadores demitidos estariam sendo prejudicados pela Justiça, pois enquanto vigorar a liminar suspendendo as demissões eles não podem receber a multa do FGTS, nem ter acesso ao seguro desemprego.

Convidados - Para a audiência serão convidados o ministro Carlos Luppi (Trabalho); o presidente da Embraer, Frederico Curado; o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Adilson Santos; o presidente da CUT, Artur Henrique; o presidente da CTB, Wagner Gomes; e o secretário-executivo da Conlutas, Luiz Carlos Pratas.

Mais informações:
www.camara.gov.br
www.sindmetalsjc.org.br

Dieese aponta que reajustes salariais em 2008
não foram afetados pela crise

Uma pesquisa divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), nesta quinta-feira (12), mostra que 78% das negociações salariais feitas em 2008 tiveram reajuste superior à inflação.

A indústria foi o setor que obteve mais sucesso, com 87% das negociações obtendo reajustes superiores ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Os trabalhadores da área de serviços foram os que mais sofreram. Os ganhos reais no salário corresponderam a 61% contra 81% em 2007.

O estudo avaliou apenas o salário-base, sem levar em conta programas de participação nos lucros e bonificações. Das 706 negociações feitas no ano passado, 44% ocorreram no Sudeste. Segundo o levantamento, os acordos conseguiram recompor o poder de compra dos assalariados. A maioria (96,7%) dos reajustes salariais foram pagos em uma única parcela. Os que tiveram reajuste parcelado correspondem a 3,1%.

Segundo o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira,  a crise financeira não afetou os reajustes salariais no ano passado. “A crise veio no fim do ano, quando a maioria dos acordos coletivos já estava fechada”.

Mais informações:
www.dieese.org.br

Hidrelétricas do PAC aquecem mercado
de trabalho em Rondônia 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa, nesta quinta-feira (12), em Rondônia, da cerimônia que marca o início da construção da usina Jirau, no rio Madeira, e da cooperação entre a construtora e o Senai e Sesi para construção de um centro de formação profissional, que qualificará 8,8 mil moradores de municípios da região. O presidente também visita o canteiro de obras da usina Santo Antônio, no mesmo rio.

PAC - As usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, que compõem o Complexo Rio Madeira, constituem um dos mais importantes empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na Amazônia. Com potência final prevista de 6.450 Megawatts (MW), contarão com investimentos totais de R$ 21,2 bilhões. Outros R$ 7,2 bilhões serão aplicados na implantação de linhas de transmissão de energia.

A construção de Jirau deve gerar aproximadamente 12 mil empregos diretos e 30 mil indiretos. A usina Santo Antônio deve gerar cerca de 30 mil empregos. Cerca de 70% dos postos de trabalho deverão ser preenchidos por mão-de-obra regional. Para ampliar a possibilidade de contratação de trabalhadores da própria região, serão oferecidos cursos de capacitação profissional à população pelo Sine, Sebrae e Senai.

Fonte: em questão
www.brasil.gov.br

Nova diretoria da Fecomerciários toma posse dia 20

A diretoria da Fecomerciários (Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo), eleita em 17 de dezembro de 2008 por representantes sindicais dos comerciários e práticos de farmácia de todo o Estado, toma posse dia 20 de março (sexta-feira), às 19h30, em solenidade na capital paulista. O mandato da nova direção vai até março de 2014.

O presidente eleito no pleito, Luiz Carlos Motta, obteve 100% dos votos. Ele já comandava a entidade desde 22 de abril de 2007, em substituição ao falecido Paulo Lucania. Uma das prioridades da nova direção da Fecomerciários é a valorização da categoria, por meio da campanha Grito Comerciários, lançada durante o 17º Congresso Sindical Comerciário.
Mais informações:
www.fecomerciarios.org.br

Fiat fatura R$ 1,8 bi e espera melhorias

Os ganhos da Fiat no Brasil, em 2008, foram 10% superiores aos de 2007, totalizando R$ 1,873 bilhões. Fiat e Renault são as duas montadoras que publicam seus números no País. A produção diária de veículos subiu de janeiro para fevereiro: 2,6 mil para 3 mil/dia.

 



Boaventura
de Sousa Santos é sociólogo e professor

 

Consensos problemáticos

Há anos me intriga a facilidade com que nas sociedades européias e da América do Norte se criam consensos. Refiro-me a consensos dominantes, perfilados pelos principais partidos políticos e pela grande maioria dos editorialistas e comentaristas dos grandes meios de comunicação social. São tanto mais intrigantes quanto ocorrem sobretudo em sociedades onde supostamente a democracia está mais consolidada e onde, por isso, a concorrência de ideias e de ideologias se esperaria mais livre e intensa. Por exemplo, nos últimos trinta anos vigorou o consenso de que o Estado é o problema, e o mercado, a solução; que a atividade econômica é tanto mais eficiente quanto mais desregulada; que os mercados livres e globais são sempre de preferir ao protecionismo; que nacionalizar é anátema, e privatizar e liberalizar é a norma.

Mais intrigante é a facilidade com que, de um momento para o outro, se muda o conteúdo do consenso e se passa do domínio de uma ideia ao de outra totalmente oposta. Nos últimos meses assistimos a uma dessas mudanças. De repente, o Estado voltou a ser a solução, e o mercado, o problema; a globalização foi posta em causa; a nacionalização de importantes unidades econômicas, de anátema passou a ser a salvação. Mais intrigante ainda é o fato de serem as mesmas pessoas e instituições a defenderem hoje o contrário do que defendiam ontem, e de aparentemente o fazerem sem a mínima consciência de contradição. Isto é tão verdade a respeito dos principais conselheiros econômicos do presidente Obama, como a respeito do presidente da Comissão da União Europeia ou dos atuais governantes dos países europeus. E parece ser irrelevante a suspeita de que, sendo assim, estamos perante uma mera mudança de tática, e não perante uma mudança de filosofia política e econômica, a mudança que seria necessária para enfrentar com êxito a crise.

Ao longo destes anos, houve vozes dissonantes. O consenso que vigorou no Norte global esteve longe de vigorar no Sul global. Mas a dissensão ou não foi ouvida ou foi punida. É sabido, por exemplo, que desde 2001 o Fórum Social Mundial (FSM) tem feito uma crítica sistemática ao consenso dominante, na altura simbolizado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM). A perplexidade com que lemos o último relatório do FEM e verificamos alguma convergência com o diagnóstico feito pelo FSM faz-nos pensar que, ou o FSM teve razão cedo demais, ou o FEM tem razão tarde de mais. A verdade é que, mais uma vez, o consenso é traiçoeiro. Pode haver alguma convergência entre o FEM e o FSM quanto ao diagnóstico, mas certamente não quanto à terapêutica.

Para o FEM e, portanto, para o novo consenso dominante, rapidamente instalado, é crucial que a crise seja definida como crise do neoliberalismo, e não como crise do capitalismo, ou seja, como crise de um certo tipo de capitalismo, e não como crise de um modelo de desenvolvimento social que, nos seus fundamentos, gera crises regulares, o empobrecimento da maioria das populações dele dependentes e a destruição do meio ambiente. É igualmente importante que as soluções sejam da iniciativa das elites políticas e econômicas, tenham um caráter tecnoburocrático, e não político, e sobretudo que os cidadãos sejam afastados de qualquer participação efetiva nas decisões que os afetam e se resignem a “partilhar o sacrifício” que cabe a todos, tanto aos detentores de grandes fortunas como aos desempregados ou reformados com a pensão mínima.

A terapêutica proposta pelo FSM, e por tantos milhões de pessoas cuja voz continuará a não ser ouvida, impõe que a solução da crise seja política e civilizacional, e não confiada aos que, tendo produzido a crise, estão apostados em continuar a beneficiar da falsa solução que para ela propõem. O Estado deverá certamente ser parte da solução, mas só depois de profundamente democratizado e livre do lobby e da corrupção que hoje o controlam. Urge uma revolução cidadã que, assente numa sábia combinação entre democracia representativa e democracia participativa, permita criar mecanismos efetivos de controle democrático, tanto da política como da economia.

É necessária uma nova ordem global solidária que crie condições para uma redução sustentável das emissões de carbono até 2016, data em que, segundo os estudos da ONU, o aquecimento global, ao ritmo atual, será irreversível e se transformará numa ameaça para a espécie humana. A existência da Organização Mundial de Comércio é incompatível com essa nova ordem. É necessário que a luta pela igualdade entre países e no interior de cada país seja finalmente uma prioridade absoluta. Para isso, é necessário que o mercado volte a ser servo, já que como senhor se revelou terrível.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra